A cultura dos monstros: sete teses, de Jeffrey Jerome Cohen
Tese I – O corpo do monstro é um corpo cultural
O monstro representa medos, ansiedades e valores de uma sociedade específica.
O monstro nasce em encruzilhadas metafóricas como a corporificação de um certo momento cultural, época, sentimento e território. Ele incorpora medo, desejo, ansiedade e fantasia. O corpo monstro é pura cultura. Etimologicamente, monstrum é “aquele que revela”, “que adverte”.
Tese II – O monstro sempre escapa
O monstro nunca é completamente eliminado: ele sempre retorna com uma nova forma.
O monstro desaparece para reaparecer em outro lugar. Seu corpo é corpóreo e incorpóreo ao mesmo tempo; sua ameaça é a propensão a mudar. Portanto, os monstros devem ser analisados no interior de uma intrincada matriz de relações sociais, culturais, literárias e históricas.
Tese III – O monstro é o arauto da crise de categorias
O monstro combina categorias que deveriam estar separadas.
O monstro é uma recusa a fazer parte da ordem classificatória das coisas. O monstro é perigoso pois ameaça explodir toda e qualquer distinção. Ele questiona o pensamento binário e introduz uma crise. Habita as margens do mundo, mas as margens são um lócus puramente conceitual. As leis da natureza demasiadamente precisas são violadas pelo corpo do monstro. Ele resiste a qualquer classificação construída com base em uma hierarquia ou oposição meramente binária.
Tese IV – O monstro mora nos portões da diferença
O monstro habita os limites do normal ou aceitável.
O monstro é o Outro dialético. Qualquer tipo de alteridade pode ser inscrito através do corpo monstruoso, sobretudo a diferença cultural, política, racial, econômica e sexual. Representar uma cultura prévia como monstruosa justifica seu deslocamento ou extermínio. Mas esse corpo incoerente, desnaturalizado, pode muito bem ser o nosso próprio corpo. Esses tipos de alteridade podem ser facilmente migrados para outros – como, por exemplo, a diferença nacional se tornar sexual. Essa violenta forclusão exige uma violenta dialética hegeliana mestre/escravo que naturaliza a subjugação de um corpo cultural por outro. O monstro político-cultural, a corporificação da diferença radical, ameaça apagar a diferença no mundo de seus criadores. Como apontou René Girard, a diferença que existe fora do sistema é aterradora, porque ela revela a verdade do sistema. Os perseguidores [de monstros] nunca estão obcecados com a diferença, mas, antes, com seu impronunciável contrário: a falta de diferença.
Tese V – O monstro policia as fronteiras do possível
O monstro é como um leão de chácara dos territórios proibidos.
O monstro resiste à sua captura nas redes epistemológicas do erudito. Ele se situa nos limites do conhecer, como uma advertência contra a exploração de seu incerto território. O monstro impede a mobilidade intelectual, geográfica, sexual, delimitando os espaços sociais através dos quais os corpos podem se movimentar. O monstro da proibição policia as fronteiras do possível. Ele é transgressivo, demasiadamente sexual, erótico, um fora-da-lei: o monstro e tudo o que ele corporifica deve ser exilado e destruído. Mas aquilo que é reprimido, como apontou Freud, parece sempre retornar.
Tese VI – O medo do monstro é realmente uma espécie de desejo
O monstro causa medo, mas também fascínio.
O monstro está continuamente ligado a práticas proibidas. Isso o torna mais atraente, como uma fuga temporária da imposição. O monstro raramente pode ser contido em uma dialética simples e binária (tese, antítese… nenhuma síntese). O monstro nos desperta para os prazeres do corpo, para os deleites simples e evanescentes de ser amedrontade. Épocas de carnaval marginalizam temporariamente o monstro, mas também o concedem um domínio seguro de expressão e ludicidade. Aquilo que Bakhtin chama de “cultura oficial” pode transferir tudo o que é visto como indesejável em si mesma para o corpo do monstro. O monstro que funciona como bode expiatório pode, talvez, ser destruído no curso de alguma narrativa oficial, purgando a comunidade ao eliminar os seus pecados. É que o monstro é o fragmento abjeto que permite a formação de todos os tipos de identidade (pessoal, nacional, cultural, econômica, sexual, psicológica, universal, particular).
Tese VII – O monstro está situado no limiar… do tornar-se
O monstro nos indaga sobre nossas crenças e quem somos.
Os monstros são nossos filhos. E quando eles regressam, eles trazem não apenas um conhecimento mais pleno de nosso lugar na história e na história do conhecimento, mas carregam um autoconhecimento e um discurso ainda mais sagrado na medida em que ele surge de Fora. Esses monstros nos perguntam como percebemos o mundo. Eles nos pedem para reavaliarmos os nossos pressupostos culturais sobre raça, gênero, sexualidade e nossa percepção da diferença. Eles nos perguntam por que os criamos.