Minha segunda suspensão
21 de junho de 2026. É solstício de inverno e dia do orgulho freak. No céu azul vespertino e sem nenhuma nuvem, é possível ver um caco de lua crescente. Estou em São Paulo, na Casa Laranja, rodeado de freaks em nossa celebração profana.
Apesar de ser início de inverno, o clima está ameno. Estou sem camisa e sinto meu corpo tremer por outros motivos que não frio. Tenho ganchos atravessados dos dois lados do meu rosto e dois ganchos saindo de meu peito. Os ganchos estão conectados por cordeletes de fibra sintética a um ponto de ancoragem acima da minha cabeça. Aos poucos, os cordeletes são tensionados para cima e começo a sentir a minha pele se repuxando.
A tremedeira que sinto é resultado da surra de adrenalina que acomete meu corpo. É uma resposta aos ganchos e à intensidade da dor consentida. Por conta da adrenalina, minha visão está cheia de estrelinhas. O mundo brilha.
Mais cedo, quando mencionei o desejo de perfurar o peito, houve uma troca de olhares de apreensão.
“A suspensão de peito é bem intensa, tá?”, Kahkilla me disse, com toda a gentileza do mundo. É ela quem vai me suspender em alguns minutos. Essa seria a minha segunda suspensão em toda a vida, então compreendo a sua cautela.
“Quando eu fiz peito, lembro de sentir que era uma questão de gozar ou morrer. Ou goza, ou morre”, me confidenciou T. Angel.
E consigo entender o que T. Angel me disse. Sinto o meu peitoral se abrindo à força, uma força quase divina que puxa a pele do peito para cima, enquanto o peso do meu corpo me agarra no chão. Os ganchos em meu rosto me remetem à sensação de arrebatamento. Não consigo parar de sorrir.
Estou dividido entre céu e inferno. A metade do caminho – esse momento em que estou meio suspenso, apenas nas pontinhas do pé – é o purgatório. Se eu remeto à simbologia cristã para explicar essa sensação, é porque o cristianismo povoou a minha criação e estruturou a minha subjetividade, mesmo que hoje eu me compreenda como renegado. E é essa simbologia que me vem à mente nesse momento: estou entre céu e inferno.
De repente, deixo de sentir o solo debaixo dos meus pés. Eu flutuo. Há momentos em que sinto que vou perder a consciência. Há outros em que sinto que os ganchos conseguiriam me separar do meu corpo, deixando apenas uma intenção descorporificada na memória do mundo. Meu corpo é apenas carne lacerada e gotejante, mas eu o amo por isso.
T. Angel segura a minha mão enquanto flutuo. “Gozar ou morrer”, eu penso, então complemento para mim: “Gozar e morrer, tudo ao mesmo tempo”.
Agora tenho uma cama de pregos!
A cama de pregos é um aparelho tradicional de faquirismo, circo freak ou side-show. A primeira vez que eu caminhei sobre pregos, foi na Convenção de Circo do Paraguai, em 2024, quando fui apresentar na Noche Freak. Lá, conheci outros freaks e aproveitei todas as chances possíveis para experimentar aparelhos que não conhecia. A cama de pregos foi um deles.
Esse ano, finalmente consegui reunir os recursos para fazer uma mesa de pregos. Quem manufaturou foi Her, com uma ajudinha de Gio. A verdade é que uma cama de pregos implica investimentos e tanto. As especificações foram as seguintes:
- Duas chapas de compensado naval, de 45cm X 90cm;
- 2 mil unidades de pregos,18 x 27;
- Verniz (apliquei verniz marítmo, que eu já tinha).
- Padrão de perfuração quincôncio, para distribuir melhor a pressão, com 1,5cm de distância entre um prego e outro;
- 2 cm de margem livre, sem pregos, para evitar rachaduras.
Minha primeira suspensão corporal
Costurei minha boca em cena
"Não existe modificação corporal que não seja política. O corpo é político em si. Viver em si é um ato político. Não existe corpo vivo que não seja modificado."
Manifesto Freak, por T. Angel